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Primavera Árabe e conflitos na Síria.

Primavera Árabe e conflitos na Síria.

May 17, 2012

Em 2010, teve início uma série de manifestações na região do Oriente Médio e Norte da África, questionando os regimes autoritários, os altos preços dos alimentos, o desemprego e a insatisfação de uma geração jovem com a falta de liberdade. Essas manifestações ficaram conhecidas como Primavera Árabe.

Inspirados com esse cenário desenvolvem-se, desde 2011, os conflitos no Estado Sírio na gestão do atual presidente Bashar AL-Assad, que está no poder desde 2000, após a morte de seu pai Hafez AL-Assad, que governou o país durante 29 anos.

Com a mudança de governo, se instalou um grande clima de otimismo por parte da população, de que o novo governante implantasse reformas no país e abrisse a economia, entretanto, a repressão contra a oposição e os meios midiáticos continuaram muito semelhantes aos do governo anterior. Segundo Danny Zahreddine, chefe do departamento de Relações Internacionais da PUC Minas, Bashar não conseguiu implementar mudanças significativas devido a uma forte rede contrária a avanços, que sustenta o governo desde os tempos de Hafez.

Nesse contexto, a população insatisfeita saiu às ruas para pedir mais democracia e liberdade. À princípio, os protestos não eram associados diretamente à queda de Assad mas, por conseqüência da atitude violenta das tropas sírias, que abriram fogo contra os manifestantes desarmados, a oposição passou a exigir a queda do atual presidente.

Frente à ameaça da oposição e às revoltas que derrubaram alguns governos na região, o então presidente fez declarações prometendo acelerar as reformas, mas devido à lentidão no cumprimento das mesmas e embalados com o clima de tensão, as manifestações continuaram se espalhando pelo país e o governo passou a usar as forças para reprimir e prender os rebeldes.

Segundo o site O Globo, as forças do governo teriam usado tanques e soldados de elite do exército em pelo menos oito cidades. Nas cidades de Deraa e Homs, tanques chegaram a atacar pessoas nos protestos. A eletricidade e meios de comunicação teriam sido cortados, as estradas bloqueadas e a presença de jornalistas e observadores da ONU proibida.

Para Zahreddine, um dos motivos pelo qual Assad ainda se mantém no poder reside na “forte rede de apoio em torno dele”, pois embora haja manifestações contra o governo, Bashar continua a ser apoiado por grande parte da população Síria.

O papel da comunidade internacional nessa problemática, é acabar com o conflito que já se estende a anos, em prol da segurança da população porém, os “avanços” só começaram a aparecer depois de muitas negociações.

A Liga Árabe já tentou por muitas vezes encontrar soluções para o conflito na região, mas continua sendo relutante em punir qualquer país membro, levando em consideração que não é do seu interesse um desequilíbrio ou desafeto com um desses países. Em relação à Síria, a Liga, com o apoio do Conselho de Segurança da ONU, havia proposto que Bashar cedesse os poderes ao vice-presidente Farouk al-Sharaa, que formaria um governo transitório, na tentativa de amenizar o caos no país. A proposta então sugerida foi desaprovada pela Rússia, que sempre foi o maior obstáculo para com os acordos sugeridos pela Liga. Com base nisso, devo destacar que o interesse da Rússia em não apoiar certas propostas em relação ao governo da Síria, parte diretamente do fato de Moscou ter uma importante base naval em Tartus.

Após muitas rejeições, a Rússia resolveu dar um passo em prol do “bem comum” e votar no Conselho de Segurança da ONU a favor do envio de um grupo internacional de observadores que supervisione o cessar-fogo, proposta mediada pelo ex-secretário-geral das Nações Unidas Kofi Annan. Apesar do acordo estabelecido, recentemente o Exército sírio e os rebeldes se enfrentaram pela primeira vez desde o inicio do mesmo, o que confirmou o ceticismo dos Estados Unidos quanto ao grau de comprometimento da Síria em relação ao tratado.

O Brasil, por sua vez, mantém o discurso que sempre tivera, baseado no princípio da Política Externa de não intervenção nos assuntos internos de outro país, embora não seja a favor da violência usada pelo governo de Bashar. “Na Síria, nós defendemos o fim imediato da repressão e encorajamos o diálogo nacional para lograr uma saída não violenta”, disse a presidenta Dilma Rousseff.

Um dos assuntos que mais incomoda a ONU, em relação às manifestações na Síria, é o fato de que o clima de tensão possa abalar os “progressos” obtidos no Iraque e que isso resulte na intensificação das tensões no país vizinho. Segundo o chefe da missão da ONU no Iraque, Martin Kobler, “O conflito no país vizinho poderia perturbar o frágil equilíbrio [...] se a violência na Síria seguir adiante, devemos contar com perigosas consequências para o Iraque”.

Os movimentos sociais se tornam uma ferramenta fundamental para a intervenção e mudança de uma estrutura. Gianfranco Pasquino explica esses movimentos sociais como ações que constituem tentativas pautadas em valores comuns [...] para se alcançar determinados resultados. (Dicionário de Política (2004, pag. 797).

Embora os conflitos não pareçam ter um desfecho em curto prazo em alguns países, a Primavera Árabe, que se caracterizou por uma movimentação popular, já resultou na derrubada do ditador Zine El Abidine Ben Ali, da Tunísia, que renunciou depois de 23 anos no cargo, concedendo ao país a sua primeira eleição livre; a saída do presidente do Egito, Hosni Mubarak, que estava no poder havia 30 anos; a derrubada do coronel Muamar Kadafi da Líbia, com 42 anos no poder, além do comprometimento de alguns países em relação à mudança do governo, como  o Marrocos, que organizou um referendo permitindo a mudança da Constituição, no sentido da Monarquia Constitucional e da Democracia.

A população síria continua lutando por mudanças significativas em seu país, em prol de avanços no sistema de governo e por uma maior liberdade política, mesmo que isso signifique prosseguir com o uso da violência e consequentemente sofrer com a repressão do governo. Segundo Hobsbawn, “O que une (os países árabes) é um descontentamento comum e forças de mobilização comuns: uma classe média modernizadora, sobretudo jovem, estudantes e, principalmente, uma tecnologia que permite que hoje seja muito mais fácil mobilizar os protestos”.  Muitos têm opiniões divergentes sobre um suposto fim aos conflitos, mas o mais sensato segundo Zahreddine, é que “mais cedo ou mais tarde haverá uma mudança, que seja por meio de uma transição negociada ou com a derrubada do presidente Bashar al Assad”.

Sobre o autor: Redação NURI | Internacionalistas

Redação NURI | Internacionalistas escreveu 17 artigos neste blog.

Equipe da redação do Internacionalistas, formada por membros do NURI - Núcleo de Pesquisa e Extensão em Relações Internacionais.

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